Testemunhos
/ O MSV na primeira pessoa

Longe de Lisboa. Quatro horas de caminho, feitas no fim de um dia de trabalho, na correria de chegar ao ponto de encontro.Entulhar os carros de sacos cama, comida e partir. Horas a descobrir quem somos... não nos falta pelo caminho. A expectativa de chegar. O que vamos encontrar? Seremos capazes de ajudar realmente quem ali parece estar esquecido? Horizonte a perder de vista e o frio do Inverno a fazer-se sentir. Tarefas partilhadas. Comunidade. Distribui-se trabalho. Partilha-se tudo. Organiza-se. Em grupos, partimos, pelos montes fora, que parecem perdidos e longe de tudo, mas ao mesmo tempo guardados num pedacinho de céu. O isolamento é de facto o que mais marca e custa, por aqui. O que estas pessoas mais sentem falta é de conversar um pouco, de partilhar as suas histórias, problemas, cansaços e até alegrias! Ao chegarmos, somos sempre bem recebidos, com enorme entusiasmo, ao longe, já nos pressentem.E ainda na mesma manhã dizem ter pensado em nós.As portas como os sorrisos abrem-se de par em par, para nos receber e sejamos poucos ou muitos, a refeição pode sair mesmo na hora. Que grande lição. Quem pouco tem, tudo dá. De tudo se fala, e pensando eu, que o isolamento, os deixava longe do que se passa no mundo, mostram entender mais que muitos políticos e entendidos na matéria. A visão clara e esclarecida sobre a crise. Falam-nos de tempos em que nunca conheceram sapatos ou fartura de nada. E aí pensamos, crise?Nunca nos faltou o essencial. Mas eles criaram-se e unidos ficaram para sempre. Hoje, graças ao que a terra lhes dá, nada ali falta. Principalmente a boa vontade. A verdade é que a paz que ali se vive, é grande. Muito grande e impossível de não se sentir. Aliás, é essa mesmo que trazemos ao deixar Alcoutim, vimos com ela... entranhada na alma,na pele... e com vontade de voltar. Uma e outra e outra vez. Porque afinal dois dedos de conversa e um abraço, nunca foram tão importantes, como ali. Pode ser uma gota no oceano, mas o compromisso com estas pessoas é muito importante e muda para melhor as suas vidas e as nossas. Porque existimos uns para os outros. Porque nos amamos naqueles instantes. E se todos se comprometessem com algo no mundo... Todos conhecem o MSV, ao passar no largo, ao sair da igreja onde o sol bate e nos aquece... olhando um rio mais do que belo. E pensar que há mais de 20 anos, outros jovens partiram vezes sem conta, como nós, para fazer o mesmo. Quantas gargalhadas, vidas, partilhas, ali não foram feitas?Quantas mudanças interiores? Decisões. Caminho. Isso deu-lhes direito a um mural de azulejos que retrata o melhor da terra e nichos que marcam a sua passagem por cada monte. E mais importante que isso a confiança e a alegria que como um testemunho,passa para quem se segue. Nós,que ao chegarmos logo vemos a porta a abrir-se, sem medo, com alegria. Como família. Tão bom. Obrigado MSV.

Rita Ramalho, voluntária do MSV (2013)

A intervenção do Projeto Sentidos passa por um trabalho de constância e permanência, persistência e confiança. Com o Sr. A. foi assim que se passou. Quando o conhecemos vivia num centro de alojamento temporário e pedia esmola à porta de uma igreja lisboeta. Todas as semanas passávamos por ele e conversávamos. Não permitia que aprofundássemos a sua história e situação de vida. A conversa centrava-se principalmente nos últimos êxitos e desaires futebolísticos do seu Benfica.

Ao fim de 18 meses, pediu-nos, pela primeira vez, ajuda para marcar consulta para uma cirurgia no Hospital. A consulta foi marcada, foi operado e, como não podia recuperar no Centro onde dormia, foi para outro local, mais pequeno, onde podia descansar melhor e onde a intervenção é mais individualizada. Descobriu entretanto ter diabetes, mas com o tempo foi aprendendo a cuidar de si. Através de um protocolo desse Centro com uma Junta de Freguesia, conseguiu ficar a trabalhar como jardineiro, trabalho de que aprendeu a gostar. Entretanto ficou desempregado e a receber subsídio de desemprego, mas está a viver sozinho num quarto, é apoiado na gestão do seu dinheiro e está bastante autónomo.

Mafalda Brandão, Coordenadora do Projecto Sentidos (2012)

Para a D. Hilária* cada dia é um recomeço. Posso até dizer que não conheço maior exemplo da palavra recomeço do que esta senhora nos seus 70 e poucos anos, para quem a vida é agora uma coleção de recordações guardadas no recanto da sua memória. A sua falta de vista já não lhe permite governar a vida de forma normal, pelo que passa os dias sentada na sua cadeirinha. O que pensa? Não sabemos bem. Talvez pense na vida ou talvez espere uma visita, um telefonema...

A primeira vez que conhecemos a D. Hilária, confrontámo-nos com uma vida vazia de esperança e cheia de solidão. Percebemos as lutas que esta senhora trava todos os dias, nas mais pequenas coisas, tal como ir a pé de uma das suas casinhas (onde está de dia) a outra das suas casas (onde dorme). Contudo, não pudemos deixar de reparar no sorriso que devagarinho começou a surgir depois de lhe pedirmos para falar da sua vida passada. Ou mesmo na pequena gargalhada quando nos explicava coisas que nenhum de nós, jovens de Lisboa, conhecia ou tinha sequer ouvido falar.

Aos poucos, fomos fazendo destas visitas uma paragem obrigatória. Precisávamos e continuamos a precisar de saber como a D. Hilária está a viver os seus pequenos recomeços. Foi por isso uma grande alegria para nós, na última visita que fizemos, termos sido logo recebidos pela nossa D. Hilária com um sorriso na cara.
*Nome fictício

Luísa Franco, Projecto de Alcoutim

«Ao longo de todos estes anos têm cumprido humanamente a tarefa de acompanhar uma faixa da nossa sociedade mais fragilizada, apoiando-a psicológica e socialmente, e transmitindo esperança renovada a cada nova visita. O Município de Alcoutim congratula-se com a presença do MSV no concelho e reitera a vontade de que a sua comparência continue a fazer parte do dia-a-dia da nossa população.»

Francisco Amaral, Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim (2011)

«O MSV, que desde há catorze anos vem mantendo uma presença constante, permanente, esforçada no meio destas pessoas tão sós, estando presente nas suas vidas com uma juventude e um testemunho de humanidade e de fé admiráveis, tem sido para a paróquia de Alcoutim duma muito apreciada ajuda na manutenção da alegria, da fé, do amor fraterno e quase filial para com os doentes, anciãos e famílias por eles visitadas, no âmbito da ação pastoral da igreja local.»

Pe. Atalívio José Rito, pároco de Alcoutim, Pereiro e Giões (2011)

«Quando cheguei aqui no Aquarela, eu era muito tímida, mas fui me acostumando ao ritmo das pessoas e fiz muitos amigos que até a minha timidez acabou. Agradeço a todos os meus educadores que aqui me ensinam a acreditar em mim e me animam a estudar, a ler, a escrever histórias, a minha história e ser ainda mais feliz.»

Mirian, educanda do Aquarela (2009)

«Quando recebi o convite para trabalhar no projeto fiquei muito feliz e percebi o quanto as pessoas aqui são amigas, carinhosas e prestativas. Hoje sinto que aqui é realmente uma família e entendo porque as crianças dizem: o Aquarela é uma casa fora de casa.»

Irene, cozinheira do Aquarela (2009)